
São 22:49 de domingo. E não tem uma única imagem na minha cabeça além da folha em branco que me engole.
Agora, são 22:45 de segunda-feira. Troquei a folha em branco pela tela preta do aplicativo em que digito. Agora, entendo Thomas Mann, quando disse que “Um escritor é alguém para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas.“
Com toda essa dificuldade, já posso me considerar um escritor?
Talvez menos do que a maioria. Em 2026, quem ainda tem dificuldade em escrever? Basta fazer um pedido, esfregar a lâmpada do LLM e esperar o gênio do outro lado fazer o trabalho dele.
Mas é aí que entram os aspectos nada lógicos que me arrastam para o analógico. Escrever a newsletter ainda é um prazer que faço questão de manter. Começo escrevendo à mão, como quem ainda prefere o café no bule. Gosto de cultivar pequenos momentos de atenção, como levar a filha à escola, correr na Lagoa, meditar. São minutos a mais, não a menos. Tempo vivido, jamais perdido.
A gente pensa que ser criativo é ser gênio: inventar uma sinfonia, escrever um best-seller, criar um unicórnio, descobrir a cura para uma doença. Mas a criatividade não é uma propriedade do ser. Está no ato. Como expliquei nessa edição, não é sequer exclusiva à nossa espécie, está presente de forma abundante na natureza e, sem ela, não haveria evolução.
Mas o que torna a folha em branco um desafio tão grande? Teria ela tanto poder assim?
Agência, Arranjos e Possibilidades de Uso
A cena da folha em branco, pairando intocada sobre a mesa do escritor, é persistente. Mas retire desse arranjo o lápis, a caneta, a máquina de escrever, um pedaço de carvão ou o que quer que possa deixar um rastro no papel e ela se torna bem menos intimidadora. Será só um objeto qualquer, desprovido de possibilidades.
Mas suponha que, agora, eu não seja mais alguém que escreve, mas um mestre em origami. A folha na mesa abandona o convite ao texto e assume um chamado quase irresistível a cuidadosas dobraduras.
Outra hipótese é ainda mais instigante. Agora, deixo de ser adulto e passo a ser criança. Esqueça a mesa, há apenas umas folhas soltas no chão. Em pouco tempo, elas assumem inúmeras possibilidades de uso: avião, barquinho, máscara, confetes, rabiola, tapete voador e outras, inconcebíveis para a mente limitada deste adulto do lado de cá.

No primeiro caso, a agência do escritor é moldada pelos seus artefatos de costume. Retire desse arranjo a ferramenta de escrita e o próprio interesse se esvai, junto com as possibilidades de uso da folha de papel em branco.
Já no segundo, é diferente. As habilidades do mestre do origami não se restringem à escrita, mas à capacidade de dobrar a superfície do papel e criar à sua vontade. Sua agência, o arranjo e as possibilidades de uso se entrelaçam e, dali, emerge uma criação.
Para a criança, o chão é o lugar de brincar. Nesse arranjo sem uma “mesa de trabalho”, ela se sente livre até mesmo para espalhar as folhas e sentar-se em cima, de onde poderá sobrevoar o mundo como um Aladim.
Mas o que acontece quando todos têm não um tapete voador, mas seu próprio gênio da lâmpada?
O Gênio da Lâmpada
O desafio da folha em branco não é tanto da folha. São as possibilidades que ela carrega, a falta de um tema, de um recorte. A ausência total de restrições. Tudo é possível, mas nada nos move.
O gênio da Inteligência Artificial traz um desafio ligeiramente diferente. Você pede, ele faz. Mas enquanto o primeiro é delimitado pela ausência de restrição interna (posso escrever qualquer coisa), o segundo é restrito ao nivelamento externo (milhões de textos que o modelo já viu). O que surge é previsível.
Em ambos, qualquer input é aceito. No primeiro, entretanto, podemos criar o que não havia antes. No segundo, o resultado nos parece bom, achamos bom o suficiente, publicamos e bola pra frente. Somos movidos mais pela urgência do que pelo prazer do ato.
Mas, apesar de pronto o trabalho, a gente não teve muito trabalho. Não refletimos o suficiente. Não dedicamos atenção ativamente, a ponto de deixar ali um pouco de nós. Só uma atenção passiva, um tanto descuidada até. Nada que nos permitisse sentir que somos parte do resultado. Acabamos editando aqui e ali, é verdade. Mas não ficamos com aquela sensação de termos deixado ali o nosso rastro, como faz o lápis no papel.
Não fica tanto com a nossa cara, não tem tanto a nossa identidade.
Ao desenvolver habilidade com um LLM, por outro lado, um especialista enxerga possibilidades de uso que muitos não veem. Consegue deixar ali seu rastro e, se for cuidadoso o suficiente, evidenciar alguns traços da sua identidade na obra.
Mas o que mais compõe essa obra?
A identidade do Barco
O que chamamos de identidade pode ser a relação da coisa consigo mesma. Se X é igual a Y, as propriedades de X serão as de Y. No sentido lógico-formal, são a mesma coisa.
Há também as coisas iguais, do mesmo tipo. Dois iphones ainda serão o mesmo produto, embora não sejam o mesmo objeto.
Mas a coisa pode ficar ainda mais interessante. Uma velha provocação filosófica lança a pergunta:
O que faz o objeto de hoje ser o mesmo de ontem, se quase tudo nele mudou?
Como no Barco de Teseu. Se você trocar gradualmente cada uma das tábuas, ao final ainda será o mesmo barco de Teseu? E se remontar as velhas tábuas construindo outro barco, qual será o barco de Teseu?

A provocação fala menos de um barco do que de nós, seres humanos, sujeitos a mudanças biológicas, emocionais, sociais e outras mais ao longo de uma vida. Há quem diga até que a identidade é só uma ficção útil.
Eu discordo. Mas também discordo de uma identidade isolada. O que torna a identidade do autor reconhecível em uma obra é um conjunto de características e escolhas coerentes com o que já sabemos sobre esse autor. É individual, mas reforçada pelo reconhecimento externo.
Mas o que acontece com a identidade conforme esse reconhecimento externo se esvai?
Quando não reconhecemos mais o barco
Agora, imagine que cada tábua não seja mais uma tábua, mas a probabilidade de uma certa tábua. Seria possível reconstruir o barco de Teseu?
Não seria. O mais provável é que houvesse uma infinidade de barcos parecidos. Mas um fato ainda mais intrigante aconteceria daí: sem o barco original como modelo (foi desmontado, lembra?), não teríamos como comparar. A pergunta permaneceria sem solução.
Sem o modelo, algumas reproduções serviriam de referência. Mas, com o tempo, os barcos se distanciariam gradualmente do Barco de Teseu. Com o tempo, o modelo perderia fidelidade. É o jpeg borrado da web, do Ted Chiang.
Um dos riscos que corremos com a IA é essa perda de fidelidade. Afinal, o volume de dados produzidos é muito maior do que a nossa capacidade de verificação.
A Era da Média
Alex Murrel escreveu sobre um fenômeno que antecede a IA, mas vem sendo acelerado por ela. Em um artigo de 2023, intitulado A Era da Média, Murrel argumenta que estamos vivendo um período monótono de uniformidade criativa.
Não importa se você está em Osaka, no Brooklin, no Rio de Janeiro ou Santiago: o seu AirBNB vai parecer o mesmo, ainda que a proposta de valor da plataforma se baseie em autenticidade.
O fenômeno da homogeneização vai muito além dos interiores. Ele se espalha pelo design de marcas, edifícios, carros, estética pessoal, conteúdo, publicidade e até pela música.
Um estudo do britânico Science Museum mostrou que, ao longo dos anos, estamos usando cada vez mais cinza nos objetos.
Nesse vídeo, cada quadro mostra as 2.000 cores mais comuns entre um grupo de 250 objetos. Também é exibido um exemplo de objeto desse grupo. Os grupos de objetos se sobrepõem; a cada quadro subsequente, 10 novos objetos são introduzidos e removidos.
Se os objetos estão mais cinzas, o que vem acontecendo com os textos em geral?
Não é sobre…
Não é sobre isso, é sobre aquilo. Isso muda o jogo. A verdade silenciosa. Os textos escritos repetem os mesmo padrões. Na publicidade, na timeline do LinkedIn, até mesmo nos roteiros das propagandas de TV. A Wikipédia até criou uma página para ajudar a identificar esses sinais.
O que muitos parecem ainda não ter entendido é que a IA não é como a caneta ou o papel. Você não pode simplesmente deixar de lado e fingir que não está sendo afetado por ela. Em poucos anos consumindo textos da IA, já estamos reproduzindo esses padrões — às vezes, mesmo quando recorremos ao papel e à caneta.
IA é um ambiente, não uma ferramenta. Ela impõe novos arranjos. Traz inúmeras possibilidades de uso, é verdade. Mas carrega características que ignoramos quando não conhecemos o modelo do barco original. Qualquer tábua serve porque todas nos parecem iguais.
Existe algum porto seguro à vista?
Navegar não é preciso, precisos são os instrumentos de navegação. Das estrelas no céu ao GPS, passando pela bússola, as referências nos orientam.
Ao navegar pela criatividade, nos orientamos pelo nosso próprio repertório. Consumir grandes obras de arte nos calibra para reconhecer o exato momento em que formos capazes de produzir alguma grandiosidade.
Em outras épocas, como no Renascimento, no período modernista brasileiro ou no surgimento do Vale do Silício, os ambientes desempenharam um papel inquestionável na produção intelectual. Dos cafés parisienses ao Café Lamas, no Rio de Janeiro, passando pela Casa Mário de Andrade, em São Paulo, determinados locais se tornaram pontos de efervescência cultural e social.
A IA como ambiente traz outras características, entre elas, o isolamento social: cada qual com o seu próprio gênio pessoal, deixando de buscar apoio nas relações sociais. Um âmbar para os que já não se sentem à vontade na companhia de outras pessoas. Mas um ofensor aos que cedem a esse impulso por falta de tempo ou priorização.
É onde outro ambiente, entrelaçado à IA, prevalece: o mercado.
Resta a nós o que está a nosso alcance. Voltamos à folha em branco.
A folha em branco
Não existe folha em branco. Nem o chat vazio, esperando o prompt, tampouco o pedaço de papel estatelado sobre a mesa, sob a caneta em repouso e repleta de energia potencial, podem ser considerados folhas em branco.
O que intimida nesse arranjo não está no objeto em si, mas em nós. O que a folha em branco representa é mais como um espelho. É a oportunidade de atrair nossa atenção para todo esse repertório guardado, esperando um sinal, uma provocação, uma lembrança, um gatilho para que venha à tona, mastigado pelas nossas próprias inquietações.
É preciso sentir para fazer sentido. Aí, se manifestam as possibilidades do ato antigenérico.
Pergunto:
· Como você tem feito para potencializar o seu repertório?
- Written by: Eduardo Dantas
- Posted on: 16 de julho de 2026
- Tags: antigenerico, estratégia